Tinha acordado tarde naquele dia, que transcorria calorosamente como qualquer outro dia de dezembro. Decidiu tomar o reforço da vacina de febre amarela, repentinamente, naquela tarde, pois sua viagem pro meio do mato estava marcada pra janeiro. Na companhia de uma amiga, seguiu para o posto de vacinação errado, a alternativa era tentar outro, aquele que traria à tona, inesperadamente, seus primórdios, nunca relembrados até então. No caminho, um quase atropelamento, uma bicicleta que entrou na frente do carro, um alerta, uma freada e um pedido de desculpas, mesmo sem ter culpa.
No posto, espera ansiosa por alguns, simplesmente serena pela sua. Um ar de tranqüilidade, um estranho sentir-se bem naquele local. Foi quando a enfermeira apareceu e lhe pediu a carteira de vacinação, olhou-a indagando se era mesmo dali, ela respondeu que sim, leu novamente a carteira, franziu a testa e revirou os arquivos até que voltou com uma ficha, amarelada pelo tempo, pousou-a sobre a mesa e constatou que na carteira havia muito mais vacinações do que constava na ficha. Então ela interveio: “É que eu morei muitos anos fora, lá na faculdade eles sempre vacinavam a gente”. Então estava tudo explicado, disse a enfermeira. Era preciso agora passar as vacinações da carteira pra sua ficha, dessa forma constariam todas as vacinas tomadas ao longo de sua vida, vai demorar um pouco, está com pressa? Sente-se.
Sentou-se e passou a analisar aquela ficha amarelada pelo tempo, pousou seu olhar diretamente no endereço que estava escrito, a lápis, Av.11, foi quando tudo veio à tona, as visões do passado, o mesmo sentimento do momento, daquele momento de seus primeiros meses de vida. Fazia muitos anos que não morava mais nesse endereço, na verdade deveria ter morado somente até um ou dois anos de idade, tempo insuficiente pra se lembrar de qualquer coisa, ninguém se lembra dessa idade. Mas essa ficha, o endereço a data das suas primeiras vacinas lhe trouxeram a exata imagem e lembrança daquele momento. Era como se o tempo tivesse voltado e estava ali na sua frente novamente, seus pais entrando com ela no colo, de poucos meses, o cuidado e carinho de sua mãe, a apreensão de seu pai. E então, ela pode sentir, o quanto fora amada, não que duvidasse, mas sentir novamente depois de tantos anos de esquecimento o amor que os pais lhe dedicaram quando ainda era um bebê é um privilégio pra poucos numa fase da vida quando parece que todos se perderam. E ficara ali, sem se conter, sem querer voltar, no passado, esse que nunca lhe deixa, e aquela imagem a perseguiu pelo resto do dia, ao longo dos anos. Talvez pra que se lembrasse, em algum momento da vida, todos nós fomos felizes.



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