Me calo
diante de um amor maior
que sai do peito
e transpassa pela
observância
fura os ifinitos
resplandece em
luminosidades
ocupando vazios
e encontra em seu peito
um outro que se funde
transmutando tudo.
E então, AMO e me calo.
Me calo
diante de um amor maior
que sai do peito
e transpassa pela
observância
fura os ifinitos
resplandece em
luminosidades
ocupando vazios
e encontra em seu peito
um outro que se funde
transmutando tudo.
E então, AMO e me calo.
Feche os olhos, sinta a força das águas frias renovando as incertezas, sua pressão despencando sobre sua cabeça, como um choque, transformando a temperatura de um corpo quente e cansado, como se a partir daqui o comando do caminho é seu e só existe você, conectado ao todo.
As vezes sonho com essa paz, esse lugar de energia bruta que te suga e te transcende pra outros mundos ao redor.
A trilha é pesada, paradas de paisagens infinitas entre você e eu, registros pelas lentes oculares impregnaram na memória tempos que jamais serão esquecidos.
Em lapedo, com unicórnios e seres encantados que habitam aquelas águas profundas, descansam sobre a pedra duas almas gêmeas, marcadas por um sinal, percebido durante o caminho, saem do corpo, se amam e acordam em em meio à um paraíso encontrado por poucos.
E ali, diante da grande arte da natureza, artistas, poetas, pensadores ou apenas sensíveis, se vislumbram diante de um espetáculo maior. A sós, nós, simplesmente, um único desejo, ficar, voltar, sempre.
Debaixo das cachoeiras, sobre as pedras, pelas trilhas, escalando montanhas, percorrendo vales, submersos, ficamos, permanentes, e trazemos, em mim, em você, apenas feche os olhos, e a viagem segue.
Sonho e sono regado ao calor de uma tarde esgotada de tragédia.
Mensagem que prenunciava um bolo de cenoura saído do forno.
Vamos? É preciso surjar os pés, que os santos nos protejam das más línguas.
E em troca, a salvação, nossa, do nosso, bem longe, numa praia qualquer de Trindade.
A poeira da estrada por testemunha desse acordo, do compromisso do retorno, de mais um bolo de cenoura.
Apesar do imenso azul do céu, a permanência era difícil, olhos alheios, terra remoída, mosquitos insistentes.
A volta parecia vir por um caminho diferente, pra cair no estradão, e tudo parecia ter mudado num instante.
Mais uma vez, não tínhamos pra onde ir, não havia pra onde fugir.
Aqueles olhos que fotografaram a árvore nua na beira da estrada me sumiram assim que o sol se pôs, diante de nós, num banco de praça.
Tinha acordado tarde naquele dia, que transcorria calorosamente como qualquer outro dia de dezembro. Decidiu tomar o reforço da vacina de febre amarela, repentinamente, naquela tarde, pois sua viagem pro meio do mato estava marcada pra janeiro. Na companhia de uma amiga, seguiu para o posto de vacinação errado, a alternativa era tentar outro, aquele que traria à tona, inesperadamente, seus primórdios, nunca relembrados até então. No caminho, um quase atropelamento, uma bicicleta que entrou na frente do carro, um alerta, uma freada e um pedido de desculpas, mesmo sem ter culpa.
No posto, espera ansiosa por alguns, simplesmente serena pela sua. Um ar de tranqüilidade, um estranho sentir-se bem naquele local. Foi quando a enfermeira apareceu e lhe pediu a carteira de vacinação, olhou-a indagando se era mesmo dali, ela respondeu que sim, leu novamente a carteira, franziu a testa e revirou os arquivos até que voltou com uma ficha, amarelada pelo tempo, pousou-a sobre a mesa e constatou que na carteira havia muito mais vacinações do que constava na ficha. Então ela interveio: “É que eu morei muitos anos fora, lá na faculdade eles sempre vacinavam a gente”. Então estava tudo explicado, disse a enfermeira. Era preciso agora passar as vacinações da carteira pra sua ficha, dessa forma constariam todas as vacinas tomadas ao longo de sua vida, vai demorar um pouco, está com pressa? Sente-se.
Sentou-se e passou a analisar aquela ficha amarelada pelo tempo, pousou seu olhar diretamente no endereço que estava escrito, a lápis, Av.11, foi quando tudo veio à tona, as visões do passado, o mesmo sentimento do momento, daquele momento de seus primeiros meses de vida. Fazia muitos anos que não morava mais nesse endereço, na verdade deveria ter morado somente até um ou dois anos de idade, tempo insuficiente pra se lembrar de qualquer coisa, ninguém se lembra dessa idade. Mas essa ficha, o endereço a data das suas primeiras vacinas lhe trouxeram a exata imagem e lembrança daquele momento. Era como se o tempo tivesse voltado e estava ali na sua frente novamente, seus pais entrando com ela no colo, de poucos meses, o cuidado e carinho de sua mãe, a apreensão de seu pai. E então, ela pode sentir, o quanto fora amada, não que duvidasse, mas sentir novamente depois de tantos anos de esquecimento o amor que os pais lhe dedicaram quando ainda era um bebê é um privilégio pra poucos numa fase da vida quando parece que todos se perderam. E ficara ali, sem se conter, sem querer voltar, no passado, esse que nunca lhe deixa, e aquela imagem a perseguiu pelo resto do dia, ao longo dos anos. Talvez pra que se lembrasse, em algum momento da vida, todos nós fomos felizes.
Ao voltar pra casa perseguindo a lua que se desenhava no céu se pondo como um norte no parabrisa do meu carro: Eu preciso ir, mas pra onde?
Pra algum refúgio que no momento estava ocupado e me disse: Até amanhã!
Queria mesmo é guardá-los, todos, em uma caixinha onde eu pudesse rememorar sempre que a saudade de um tempo utópico me alcançase.
Mas meu ego ainda não é o melhor de mim, portanto, partam, voem, que uma dia o que ficou se tornará eterno.
Não se preocupem, eu sempre estarei pensando em vocês, mesmo que vocês não saibam, mesmo que nos sonhos eu ainda seja distante.
O fato é que o verdadeiro amor liberta, por isso vocês se tornarão tão livres e por isso eu continuei sempre aqui.
E quando não me restar mais nada, restarão meus escritos na minha velhice, ficarão para outrem, para aqueles que um dia passaram por aqui.
A chave foi pra que vocês saibam que sempre terão acesso à uma porta que os levem até mim.
*Título e texto sugerido por uma amiga confidente nessa madrugada de etílico.
Dome seus cavalos selvagens, carregue o mundo em suas costas esfoladas, queime, atravesse o inferno, incendeie os lagos lamacentos, se liberte das cavernas escuras, naufrague, volte à tona, suba até os picos e depois desça ao mais profundo dos abismos, mas corra, corra sem olhar pra trás, deixe tudo como estava antes, corra até perder o fôlego e quando cair de cansada, cairá em meus braços e eu cuidarei de suas feridas, pois é chegado os tempos do reencontro final, do fim da espera secular, da desesperança.
Sinta aquela nossa eterna sintonia, sinta o que se aproxima, sinta os deuses conchavando a nosso favor, sinta o início de um novo ciclo. Serão tempos de renovações, de desconstruções, de novos livros ordenados em novas estantes. Não tema, você nunca estará sozinha, peguemos as armas, as armaduras, os escudos e caminharemos de mãos dadas e aquele velho cavalo alado branco estará à nossa espera pra voar para os céus do infinito.
Um bailarino a girar no céu. É assim que eu, aqui debaixo, o via. Não importa o que eu tenha apagado da memória, o importante é que você apenas saiba que a Fixação também pode ser minha. E quando souber, esqueça, assim que o ano terminar, assim que você se for ou assim que eu desistir. Finja, que nada do que poderia ter acontecido aconteceu, finja que aquele único abraço foi apenas uma despedida, finja que esse ano nunca existiu, finja esse texto no gênero inverso e , por fim, finja, que não existe amor, apenas FIXAÇÃO, só isso.
À Natália Biscassi
O que realmente os olhos vêem? Aquilo que o nosso cérebro condiciona ao longo da nossa existência ou a realidade que ninguém sabe distinguir da ilusão? É válido confiar nos olhos, tão incapazes de enxergar além, tão falhos que perdem pra mais trivial das tecnologias como óculos ou qualquer telescópio, binóculo, luneta, lupa? Os olhos mentem o tempo todo, nos mostra o que os outros querem que vejamos, nos desvia a atenção de nós mesmos, nos cega, nos entorpece, nos ludibria. Alguém consegue enxergar tudo? Quem? Enxerga o que? Se a realidade é uma ilusão e a ilusão é nossa própria criação, então que realidade os olhos enxergam? Ou enxerga a ilusão? Os olhos são capazes de captar a nossa percepção, ou distorcem ela, a carregam de preconceitos e de ideias pré-concebidas por outros e nos limitam a imaginação, a sensação? Feche os olhos, toque, cheire, sinta e experimente "enxergar" sem o obstáculo dos olhos uma outra realidade, não sei se também iludida, mas certamente uma outra, diferente daquela imposta por nossos olhos. Eu sigo com a minha miopia, assim eu controlo melhor a minha visão, por vezes fecho os olhos, outras tiro o óculos, mas quando quero realmente me enganar ou me limitar, eu colo os meus 1,5 grau pra longe e 1 grau pra perto.
“Lhe começou de falar muitos requebros e amores e palavras lascivas, melhor ainda do que se fora um rufião à sua barregã e lhe deu muitos abraços e beijos e, enfim, a lançou sobre sua cama, e estando ela confessante de costas, a dita Felipa de Souza se deitou sobre ela de bruços e com as fraldas delas ambas arregaçadas, e assim, com seus vasos dianteiros ajuntados, se estiveram ambas deleitando”. (VAINFAS, Ronaldo. Confissões da Bahia. São Paulo, Cia da Letras, 1997. P. 158.)
O espelho retornou uma imagem distorcida me causando ânsia da vida que supostamente pensava existir.
A partir do avesso do esperado deslumbre, o ar consequentemente ia se tornando rarefeito em torno de tudo que cercava o meu entorno.
A falta que me fazia tamanha imensidão de história e aos poucos foi esvaindo pelas minhas conscientes mãos, já não me causava dores físicas e sim me perpetravam na alma a infinita e irremediável dor da perda, do esquecimento forçado.
Um sentimento indecifravel passou a se tornar fiel companheiro pelos dias inventados, pelas semanas fantasiadas, pelos meses que nunca existiram, pelos anos que nunca se aproximavam.
E mesmo que ainda finda tudo o que me matava nesse instante, o por vir não apagaria o que pensei em ser.
Parte de mim foi levada na última ventanina, parte de mim se esfacelou na última palavra, parte de mim reluta contra uma onda imaginária.
E algo se torna repetidamente providencial: eu não consigo mais ver o que todos me dizem que vêem.
Passo então a ocupar a divindade do trono dos míopes, que nunca enxergam através dos olhos que lhe enfeitam a face, optando pela cegueira como um escudo contra contradição.
Maldizendo você a todos como uma forma de maldizer a tudo aquilo que inutilmente reluto em admitir que me tornei, retornei, forçosamente, uma outra imagem pro mesmo espelho, que nunca existiu e certamente não era mais eu.
Deus do Tempo, juíz supremo do destino, chegou ao seu veredito e proferiu sua sentença: eu os condeno ao amor eterno, ao desejo insaciável, à extrema necessidade um do outro, à paixão incontrolável, os condeno também à separação eterna, à distância intransponível, à falta de entendimento, aos diálogos invertidos, aos desencontros, aos caminhos opostos, à desintonia, à desarmonia, aos olhares inalcansáveis. Está encerrada a sessão. E o som do martelo ecoou pela sala quase vazia enquanto meu olhar te fotografava na tentativa de guardar seu rosto.
A História liberta e a Arte transforma.
Uma nos liberta da cegueria constante e cômoda que nos leva à ignorância, ao preconceito, nos tornando livres e donos da nossa própria história.
A outra é a concretude do abstrato, fala em profundidade, tem conhecimentos transcendentais.
A História é o amor construido pelos milênios, a Arte é a paixão aflorada que se perpetua pela História.
A Arte é o desapego com as convenções, com os padrões, a História é a análise do sentimento aflorado pela Arte.
A genialidade da Arte talvez seja a liberdade que ela nos dá de enxergá-la de acordo com a nossa própria perspectiva.
A necessidade da História é também ser contada pelos que não a ouviram, pelos que não ouvimos.
Que a Arte me impeça de queimar as caixas onde guardo as minhas lembranças para que eu não cometa suicídio das minhas memórias.
Que a História seja meu refúgio nesses dias de inverno para que eu possa alcançar em sã consciência as outras estações.
Que os meus caminhos sejam traçados pela perfeita sincronia entre elas, para que a minha Arte seja mais racional e a minha História não seja esquecida em vão.
E que a História da sua Arte nunca se distancie totalmente da Arte com que conto a minha História.
Sem mais o que fazer ou sem mais vontade pra fazer: Eu vou pirar minha cabeça, até que o frio congele meu corpo, até que a lua se cubra novamente de negro, até que o sol se torne vermelho.
E pra quem não entender, que não se cale, que me pergunte, ou então espere que tudo passe, que eu não sinta mais e então me cale também.
Mas que não me observem nas sombras com suas falsas impressões que me chegam tortas, em códigos indecifráveis. E que essa ânsia em me esconder se torne luz que cegue a todos que se escondem de mim.
E no final do corredor vermelho só restará um suspiro, uma saudade, uma descoberta tardia de um tempo prestes a se esgotar, a se desabrochar pra longe da minha loucura reprimida. E desse dia em diante, os deuses, os profetas, os grandes poetas não farão mais parte da sua imaginação sobre mim.
* Neologismo inspirado no monólogo.
Primeiro fomos arrastadas pelos cabelos, por brutamontes peludos que ainda grunhiam suas palavras. Depois, já éramos prostitutas, parideiras, enclausuradas no gineceu da escuridão das casas da antiguidade. Cuidávamos dos filhos, dos maridos, nos calávamos diante da política. A melhor forma de convencer os homens, donos de todo o poder, era sexualmente, pois palavras engajadas não eram do nosso feitio. E numa ilha distante, onde habitavam grandes poetisas amantes, guerreiras, os vestígios foram apagados e transformados em lendas. Fomos bruxas, sabatizamos com o diabo, queimaram nossas almas vivas em praças públicas, duvidaram da nossa contribuição genética na geração, da nossa inteligência. Mas ousamos, lutamos, amamos. Levantamos nossas saias, fomos ao deleite, íncubas, súcubas, tríbades. E quando chegaram aqui, o mundo se calou diante do estupro, do genocídio.
Mas erguemos nossas vozes, não escondíamos mais nossas heresias, nossas peversões, nossos corações, pegamos em armas, lutamos e morremos. Tentaram nos trancafiar em manicômios, em presídios, por amarmos ao contrário, por sairmos de casa, por nos recusarmos a fazer o jantar. Nos obrigaram a fabricar bombas, mas também já findamos uma guerra. Conquistamos o voto, as leis, a política. Mas ainda nos escondem debaixo de mortalhas em alguns lugares do mundo, onde ainda somos apedrejadas, chicoteadas, onde ainda nos fazem calar, onde ainda nossas vozes não conseguem ecoar além das fronteiras do fundamentalismo, da ignorância, da opressão.
Levantem-se mulheres, continuem a queimar seus sutiãs, seus medos, sua submissão. Não aceitem mais outro sobrenome, andem na frente, dirijam seus carros, não arrumem mais a casa, deixem a tolha molhada na cama, os pratos sobre a mesa. Não frequentem templos que reproduzam a sociedade patriarcal. Acendam seus charutos, continuem a pensar, a não aceitar, libertem suas mentes assim como libertaram seus corpos do julgo machista e patriarcal.
Ele comeu aquele doce, seguiu a borboleta azul e voou pro céu que se abriu. Se perdeu na multidão e não quis mais ser achado até o amanhecer. E pra não me perder também, segui um turbante colorido, que ia ao longe, se distanciava de mim me fazendo agarrar em sua cintura. Até que desisti, me perdi, depois me achei novamente voltando pra casa.
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